
Quarta-feira, Agosto 13, 2008
"Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não se afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo".
Caio Fernando Abreu in "Os dragões não conhecem o paraíso", p. 148.
Quarta-feira, Abril 02, 2008
Decidi que vou dar umas férias a esse blog. Postar apenas uma bobagem ali outra aqui. Escreverei mais frequentemente em outro lugar. Deixarei o endereço novo em blogs que acompanho sempre. Quem gostar de ler isso aqui e não tiver blog, deixe seu e-mail nos comentários que eu enviarei o novo link.
Ps: Tá difícil usar isso daqui. O servidor expira em menos de 3 minutos. :(
"o problema não é apagar as luzes e dormir
o problema são as luzes queimarem..."
Quinta-feira, Março 13, 2008
Ouço, ininterruptamente, a trilha sonora maravilhosa de Juno desde que cheguei do cinema. Filme delicadíssimo, ousado sem precisar nos dar grandes socos no estômago. A prova de que uma história batida pode parecer incrível se contada sob uma ótica deveras perspicaz e sem qualquer apelo do tipo dramalhão. Como não tive aula no último horário na faculdade, consegui pegar a última sessão e fui sozinha pra aquela sala quase vazia me deliciar, uma vez que adoro a telona só pra mim e alguns poucos notívagos que não vão cochichar a cada cinco minutos. Adoro não ter que ouvir, por todos os lados, aquele barulho insuportável de sacos plásticos sendo amassados. Adoro caminhar até o estacionamento com o shopping já a meia-luz para fechar...
Fiquei doida pra chegar em casa e escrever compulsivamente sobre todas as sensações da noite e não deixar que nada escapasse. No entanto, aqui estou e já me reprimo e atropelo coisas: escrever dói mesmo. Parece que quanto mais julgamos ter intimidade com as palavras, mais elas nos olham sarcásticas, provando que é mais difícil do que tomar chá de alho pra curar gripe.
Tanta coisa por dizer, e eu não disse quase nada. Tantos olhares pra escrever e ratificar as dores que estes provocam em mim... Rabiscos como sempre inacabados por causa de um já conhecido nó na garganta. O tempo vai passando e eu não gravo em letras os gostos novos que vou sentindo. E gravar em letras, pra mim, é o mesmo que adentrar num universo que existe num interlúdio qualquer, esbarrando vez ou outra em outros sopros de vida que não param de me surpreender.
Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008
Um rabisco sem revisões
O sentimento da ausência tem muitas faces. As que eu experimentei, não passam da quantidades de dedos de uma mão só. De todas, tem duas que me intrigam deveras. Uma é mais serena: a ausência de Drummond. É a ausência que não é falta. A ausência que é branca, tão leve que parece se aconchegar nos braços e tem lá suas exclamações alegres. Talvez seja parecida até com a ausência de Arnaldo Antunes, não fosse o seu pedido incessante de socorro em prol de qualquer coisa que se sinta...
Mas hoje, especialmente, segunda-feira de carnaval, é outra que faz a festa por aqui. E essa dilacera meu corpo inteiro e eu não gosto nenhum pouco. Enquanto tudo é diversão fora da janela, ela despeja doses lentas de solidão, quando se tem a pior das solidões: a não opcional.
Estar longe das mãos protetoras que envolvem o seu quarto em calor de mãe, e não fazer parte de coisa alguma, te joga numa redoma escura onde ninguém é por você. É só você e nenhum lugar onde aquecer as mãos - para não esquecer do blues melancólico de Simona Talma. Sem qualquer criatura para te procurar, se você, sem querer, se perder... Uma ausência insistente, inquieta, onde a única coisa que se busca é uma preciosa dose cavalar de fuga... de onde você estiver.
Quinta-feira, Janeiro 10, 2008
"amor, meu grande amor
só dure o tempo que mereça..."
Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
Era uma vez um monstro que tinha muitas facetas. Tenho pra mim até hoje que ele me mostrou aquela que era mais cruel. Talvez mais por fraqueza que por maldade. Dizia sempre estar me ajudando, quando me destruía. E se seu dia tivesse sido ruim, eu era a candidata mais cotada para a posição de bode expiatório. Na verdade, eram muitos monstros dentro desse. E me obrigava a me sentir a pior pessoa do mundo inteiro, digna do pior lugar para dormir na casa, como migalhas dormidas do pão que mais desejava. Esse monstro me impedia de terminar qualquer tarefa que quisesse muito fazer, porque simplesmente me fazia acreditar que não iria nunca conseguir. Um monstro que me apoiou na busca de muitos colegas e rostos conhecidos e que me fez solitária, desejando ter tido apenas uma turma de pouquíssimos amigos na certeza de serem pra vida inteira e para todas as fases que tivesse que passar. Poucos deviam imaginar que eu, conseguindo transitar por vários grupos de diversas tribos, revirava-me de inquietação e tristeza por saber que não fazia parte de nenhum, nem nunca faria. A mais transparente e doce de todos era, na verdade, a mais fechada e fraca. E tinha medo de um punhado de gente. Sem escolhas, o mostro me fez implodir um grito que dura até hoje. Uma implosão que tornou o meu silêncio sangrento e cheio de espinhos, contrastando com a áurea angelical que a maioria enxergava. Virei perdedora de qualquer coisa futura que decidisse fazer. Cadeira cativa, por assim dizer. Ré de mim mesma, confesso que o mostro ainda vive e me atormenta. Decretei julgamento, e clamo por absolvição. Meu Deus, e se esse monstro for só eu?
Segunda-feira, Dezembro 24, 2007
em breve um post de avaliação de 2007...
:)
sem muito saco pra escrever.
Terça-feira, Novembro 13, 2007
Explora-me um pouco mais, Ulisses!
Não vê que o meu cheiro
Implora por isso?
Tenho um corpo sedento por poesia,
Arrepiando-se ao ângulo exato.
E a ternura se fará presente,
Oferecendo seu calor
Como o melhor ópio dos tempos...
Olha-me pelo avesso,
Explode meus muros de medo
Com teus batimentos mais céleres
Como se fosse dinamite...
E assim a lascívia faz do meu universo lúdico,
Uma extração do precioso delicado
Que não tem nome, nem cor...
Só tom.
ps: na ansia de escrever, inspirei-me em hilda hilst e a sensualidade que ela me entrega ficou transbordando...
Segunda-feira, Novembro 12, 2007
"Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu grito por liberdade,
Você deixa a porta se fechar.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar.
Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade..."
(Paulinho Moska)
Sábado, Outubro 06, 2007
"Ta fazendo frio nesse lugar / onde eu já nem caibo mais" (Arnaldo Antunes)

Quarta-feira, Setembro 12, 2007
A vida secreta das (minhas e suas) palavras
Uma tarde atípica. Incrivelmente confortável e quentinha. As cinco pulseiras prateadas simbolizaram um pouco do açúcar desejado pra boca, embora, no final das contas, nada tenha a ver com o que busco. Na verdade, eu estava buscando você. Algo externo a mim, e que pudesse me machucar com delicadeza. Um machucado capaz de gerar o movimento necessitado, antes tão inerte.
Um cheiro de sabão em pedra, invadindo e pairando o por toda a sala. Um cheiro de transparência vindo da sua pele branquinha. De fruta cítrica fresca, em dia frio de sol. Como se pudesse transcender a energia que circunda a essência acabrunhada de pessoas raras - deleitam-se com o estranho vazio oriundo da ousadia de querer saber de si, no sentido de lapidar toda a singularidade possível. E, assim, entrega como flor, em minhas mãos pequenas, o algo tão sutil e sem nome.
Você é tão simples que nem sei como tocar... Dona de uma secreta fragilidade que te torna forte e imbatível, mas deixando o canal aberto para perceberem subjetivamente sua cor e os anseios que te fazem querer se esconder do mundo inteiro.
É isso. Eu de repente te amo e você me presenteia com essa inundação de palavras me embalando, numa dança de gosto de chocolate. Não sei mais o que dizer. Sua imagem vai me escapando e o calor em mim se acomoda e me ilumina o rosto. Fique mais, por favor, e me ensine sobre a beleza de pouco falar e como vigiar, cercando com redoma e deixando macio, aquilo que eu pouco vejo motivos para compartilhar.

Sexta-feira, Agosto 31, 2007

Seu relógio parece não funcionar. A inércia toma conta de tudo. Cada poro do seu corpo suplica por qualquer movimento, como um cachorro vira-lata tentando catar por aí as migalhas de pão, dormidas. Por qual força você espera? Qual te tiraria do vão insosso e áspero?
Como pode alguém ter desejos tão efêmeros e confirmar, em todos os entraves, a tese de que só consegue deixar tudo inacabado? Você é fraca. Fraquinha. Por acaso já ouviu falar em autoboicote? Acredito ser é o que faz consigo mesma quase sempre. Vive tão perdida, buscando proteção em braços raros, tudo porque tem medo de ficar sozinha, teme não se sustentar nesse mundo pra lá de esquisito. Teve até a ousadia de se esconder por detrás dessa flor chamada Girassol, vejam isso! O girassol é a flor mais masculina que existe. Não tem traços delicados. E gosta tanto de chamar atenção, que nem deixa as pessoas notarem que possui um talo tão frágil que nem lhe dá o suporte por muito tempo. Desacredita na sua beleza, amarelona, diferente de todas as outras. Deve ser por isso que fica girando em torno do deus sol, permitindo o ofuscar da vista, em sua onipotência. E ela vê graça nisso: saltitar em doses cavalares de instabilidade, e depois morrer, exausta, num gozo efêmero e estranho.
Domingo, Agosto 19, 2007
da sensação estranha das notícias póstumas
desbotam as cores que ainda existiam.
como se o ciclo
já fechado
pudesse ainda manchar
(no entanto, sem doer).
um vazio capaz de absorver
a quase indiferença que restou.
e nada - exatamente nada -
ficou no seu lugar
que atingisse o meu peito
com qualquer calor:
um passo, jamais para dentro,
abdica de tudo que nos for estreito
para entardecer
o que já se pôs.
Quarta-feira, Agosto 08, 2007
Pedindo licença
Sentou-se bem de frente a mim, naquele colchão na varanda da casa da lagoa. Trouxe o violão e me deu o primeiro sinal da sintonia inata, mesmo sem trocar mais do que cinco palavras - a discrição. Ainda sem nem saber o seu nome, num impulso não censurado, dias depois, foi ele que eu quis tirar pra dançar e a linguagem corporal foi compreendida na medida exata, fincando em solo a ponte que estreitaria a distância, mais um pouco à frente - a surpresa. Depois eu tive medo, "pois o próximo instante era o desconhecido". Lembrei de Clarice. Recuei e voltei em flor semi-aberta, numa mudança de perspectiva ponderada e amadurecida - o discernimento. Uma tranqüilidade passou a fazer morada por essas bandas e a sensação não era de algo novo, esse entusiasmo tantas vezes efêmero. Não, parecia mais que eu havia descoberto um baú de antiguidades, conservadas da corrosão do tempo por uma perfeita redoma. Lá estavam caixinhas de músicas e letras em papéis amarelecidos. Deleitei-me, como se soubesse que aquilo sempre tivera sido meu - os ritos. Tinha cheiro de Clarice de novo e sua felicidade clandestina, ao se divertir num balanço, abraçada no livro de Lobato que contava as Reinações de Narizinho - as coisas atemporais.

Domingo, Julho 08, 2007

Domingo, Julho 01, 2007
Difícil me lembrar da sua voz e embora eu queira rever filmes em minha memória, os momentos em que estivemos juntos só me vêm como fotografias, onde não há movimento e não somos capazes de ouvir os sons. Não identifico o dia da semana. Dificilmente tenho noção do ano. Só reconheço as cores e uma forte impressão das sensações daquele instante, como a ansiedade que eu sentia ao esperar o refresco de maracujá feito por você...
Éramos uma dupla imbatível! Ninguém podia com o velho fusquinha azul, quando na volta da escola, a gente compartilhava a direção. Depois, o velho balanço, amarrado num dos caibros que sustentavam as telhas, aguardava-me no terraço - que já não existe mais. Ao lado, a mini-cadeira de balanço azul era perfeita para o descanso, e eu não tinha dúvidas de que havia sido o meu melhor presente.
Queijo com goiabada. Leite com Nescau. Farelo de bolo de vovó com café. Você era o melhor. E eu era a melhor, perto de você. Não tinha criatura no mundo que nos desgrudasse.
"A véia debaixo da cama", "o jacaré de paletó", "comadre onça e compadre macaco". O velhinho do morro que queria me levar embora, quando você, com firmeza, dizia-lhe: "essa eu não vendo, não troco e nem dou retrato". Histórias para rir, para dormir e para nunca mais esquecer. Fábulas que plantaram sementinhas em mim desde criancinha, e que eu tive a emoção de rever na série “Hoje é dia de Maria” e no filme “Peixe Grande”, de Tim Burton.
A sabedoria de gente de mãos calejadas, sem agrados pecuniários para oferecer, mas um amor em potencial incrível e uma simplicidade que só o olhar de uma criança é capaz de reconhecer de imetiado. E o fato de só ter podido conviver contigo durante os meus primeiros cinco anos de vida, faz com que só exista esse olhar mais sutil, espontâneo e puro para a nossa partilha. Talvez esse sim seja o maior presente, e não a cadeirinha azul de balanço supracitada. O presente de uma convivência que não teve a oportunidade de estragar com o azedume do cotidiano dos “adultos”, que compram tudo prontinho das lojas e aceitam, sem indagações, o prazer sintético, efêmero e vazio... Escravos do tempo inventado pela própria sociedade, do dinheiro (sempre mais) e das opiniões de massa, alienadas e hipócritas. Não, a nossa história teve a honra de sair incólume de interferências desse mal deveras assolador...
Obs: Texto em homenagem ao meu avô parterno, carinhosamente chamado pelos netos de "Dodô". Esse ano, sua ausência completa quinze anos. Acredito que dificilmente terei uma relação tão cúmplice como a nossa, coisa que me espanta até hoje. É a saudade mais doce e leve também. E a primeira tristeza consciente que lembro ter tido, que foi quando ele voltou do Maranhão, após fazer uma cirúrgia pra retirar um tumor no cérebro, e me olhou indiferente, sem assimilar minha figura. Foi uma pontada forte no peito. Ora, eu, com quatro anos de idade, não sabia o que pensar da situação em ter uma das minhas principais referências, um dos meus maiores amores, sem corresponder a minha alegria em vê-lo chegar... Depois perdoei, sem saber que o que sentia era perdoar, e encarei os seus últimos dias da forma mais serena que podia existir...
Terça-feira, Maio 29, 2007
Fico tão desconsertada que só consigo rir. Por acaso, uma seqüência incrível de fatos começa a me surpreender. E eu gosto da sensação que me invade. Parece que muitas peças vão se encaixando num cenário onde jamais me imaginei. E antes que as pretensões pareçam claras, a vida parece adiantar-se e me olhar irônica, meio de canto, como se dissesse: o café da manhã já está sendo posto na mesa, daí você decide o que realmente pode, quer e desejar saborear. Verde, fruta silvestre. Manoel, Frederico e Chiquinha. Bilhetes escondidos por entre os cigarros de menta. Tudo que vem, quando eu já me sinto exausta de só ir.
Domingo, Maio 27, 2007
Da palavra
Quando a linguagem se funde com os nós do corpo, sintetiza as nuances do mundo externo com o interno, vai garimpando e lapidando o que há de ter valor, transportando-me tantas vezes para outras dimensões capazes de me fazer arrepiar a pele. E só quem realmente se encoraja a entrar nesse mundo obscuro das palavras é que se sensibiliza para o que está expresso nas entrelinhas, que contém milhares de atos falhos, tropeços e descobertas capazes de dizer mais ao próprio escritor, após pesadas elaborações. Escrevendo, eu capturo mais de mim mesma. Lendo, eu capturo o que me é possível do outro e o que há de mim naquele outro. Um egocentrismo necessário ao passo que só me conhecendo mais e percebendo para onde meu olhar me leva é que posso formar com segurança minhas opiniões e entender minuciosamente minhas atitudes, num modo de dar mais sentido a essa existência duvidosa e dolorosa.
* * *
"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu."
"Escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio."
"Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra."
ps: Todos os trechos em destaque são de Clarice Lispector, retirados do livro "Água Viva".
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